
Von SilfrohnAltdeutscher Schäferhund
A raça que aguerra fria guardou
O Pastor Alemão de Linhagem Antiga não é uma moda nem uma raça nova. É o que restou de quarenta anos de criação fechada do outro lado do muro.
Antes de haver uma raça
No final do século XIX havia, na Alemanha, muitos cães de pastor regionais. Não eram escolhidos por serem bonitos: eram escolhidos por trabalharem.
Vinham sobretudo da Turíngia, da Saxónia, da Baviera e de Württemberg, e variavam muito entre si — uns de orelhas tombadas, outros direitas, uns cinzentos, outros não. O que tinham em comum era a função: pastorear, guardar, proteger.
Em 1899, Max von Stephanitz funda a SV e regista o primeiro Pastor Alemão oficial: Hektor Linksrhein, rebatizado Horand von Grafrath. Era lobeiro, de pelo semilongo e funcional — representativo dos cães de trabalho do seu tempo.
Com as décadas, a raça foi sendo padronizada para exposições e não para a função. É aí que começam as restrições a certas cores e tipos de pelo — decisões administrativas, não genéticas. Explicamos isso na página das cores.

Os cães de antes da raça
Antes de 1899 não havia «Pastor Alemão». Havia cães de pastor de cada região — e o Stephanitz fotografou-os.

Schafpudel, de pelo hirsuto 
Cão de pastor cinzento, de pelo áspero 
Cão de pastor de pelo curto
Max von Stephanitz, «Der deutsche Schäferhund in Wort und Bild», 1921 · domínio público.
O primeiro registo
Em 1899, Max von Stephanitz compra um cão numa exposição e regista-o com o número 1. Chamava-se Hektor Linksrhein; passou a chamar-se Horand von Grafrath.


O branco está na raça desde a primeira geração: o Greif é avô materno do primeiro cão registado. A Lene, filha dele, era cinzenta, e o Horand também — é o que se espera de uma cor recessiva, que pode saltar gerações. A história do branco →
Fontes: James R. Engel, «The Police Dog — Evolution, History and Service» (cores de Pollux, Kastor, Lene e Greif); FCI, apresentação do estalão 347 (Greif, branco, avô de Horand); OG Pforzheim-Sedan, do SV (Greif × Lotte → Lene; Kastor × Lene → Horand); bases de pedigree (números SZ). A cor das duas avós não está documentada nas fontes originais; criadores alemães do Pastor Branco descrevem a Lotte como «wolfsgrau» (cinzento-lobeira).

Quando a raça ainda se estava a fazer
Uma exposição de pastores alemães na Alemanha, nos anos 20. Foi em filas como esta, de trela curta e chapéu na cabeça, que se foi fixando o tipo da raça.
Repara nos cães: dorso direito e posteriores moderados, muito longe do pastor de exposição angulado de hoje. Por esta altura, em 1922, a SV introduziu a Körung, a aprovação obrigatória dos reprodutores.
O que aconteceu, por ordem
Datas, não opiniões. A história desta raça é uma sequência de decisões políticas — e os cães foram atrás.

A primeira tentativa
Criadores alemães juntam-se para uniformizar os cães de pastor, que variavam muito de região para região — o württemberg de orelhas tombadas, o thüringer cinzento de orelhas direitas.

Horand von Grafrath
Max von Stephanitz funda a SV e regista o primeiro Pastor Alemão: Hektor Linksrhein, rebatizado Horand von Grafrath. Era lobeiro, de pelo semilongo, e funcional. A ideia inicial era clara: utilidade antes de aparência.
O Körbuch
Para travar a criação descontrolada cria-se o livro de seleção que completa o livro de origens. Só os cães aprovados por um juiz ficam aptos a reproduzir.


Duas ideias de cão
A Alemanha Ocidental seleciona um cão fino e ágil, mais próximo do malinois de hoje. Do outro lado, o critério é outro.

A Alemanha parte-se em duas
Nascem a RFA a ocidente e a RDA (DDR) a oriente. O país fica cortado ao meio, e com ele a criação da raça.


O muro
Berlim é dividida por um muro com 255 tirolesas para cães de guarda. Cerca de 4000 pastores alemães passam a guardar a fronteira.

Quarenta anos de criação fechada
Praticamente sem contacto com o exterior, o Estado da RDA impõe um programa de criação rigoroso e controlado. Só os cães que respondiam aos critérios mais exigentes reproduziam.

Cai o muro, ficam os cães
Sem fronteira para guardar, a criação do Estado deixa de ter razão de ser. Muitos cães foram abandonados ou abatidos. Alguns criadores recuperaram-nos.
Nasce o Altdeutscher
A SV integra os DDR de pelo curto, mas na altura não aceitava o pelo longo. Criadores alemães continuam essa linha à parte e mudam-lhe o nome: Altdeutscher Schäferhund.
A SV aceita o pelo longo
Tarde. A linhagem antiga já tinha seguido o seu caminho, com várias gerações de cães DDR de pelo longo e dorso direito no pedigree.
Em Portugal
Somos os primeiros em Portugal e na Península Ibérica a criar esta variante, com os critérios dos clubes da raça.
Quarenta anos a criar à porta fechada
O que hoje se chama linhagem antiga foi feito num país isolado, com o cão tratado como equipamento de Estado. É duro de dizer, e é a verdade.
Entre 1949 e 1989 a RDA esteve praticamente cortada de contacto com o exterior. O governo decidiu que todo o Pastor Alemão entrava num programa de criação rigoroso, controlado e obrigatório — porque via no cão um instrumento militar.
O que as normas exigiam
Cães poderosos, robustos, leais, atentos, corajosos, seguros e muito inteligentes. A saúde tinha de ser sem falhas: ao primeiro sinal de displasia da anca ou do cotovelo, o cão era descartado da criação. Um dorso direito tornava-os menos sensíveis a esses problemas, e por isso foi selecionado.
Cada ninhada era examinada inteira — dentes, orelhas, temperamento, pelo — como se fosse uma peça de equipamento. Aos critérios de estrutura juntavam-se os de trabalho: resistência, tenacidade, capacidade de escalar muros a direito, faro apurado para busca.
E as condições eram extremas
Eram expostos a clima rude e a esforço físico duro, para escolher os geneticamente mais resistentes a doença. Os que guardavam a fronteira ficavam presos a uma tirolesa de cerca de 70 metros e eram alimentados de oito em oito ou de dez em dez dias, para aumentar a agressividade. Outros trabalhavam em busca, por vezes em matilha, em prédios, florestas e campos.
Destes quarenta anos saiu um cão de cor e pigmentação escuras — lobeiro, cinza, castanho-escuro, preto, preto e castanho — de estatura forte e cabeça larga, em pelo curto e em pelo longo.
Pastores da RDA na União Soviética
Esta página de uma revista alemã da época, «Deutsche Schäferhunde in der UdSSR», mostra os melhores pastores de Woroschilowgrad (hoje Luhansk, na Ucrânia) no fim dos anos 70. Segundo a própria legenda, a Erra foi importada da RDA, e os pais dos outros têm afixos de canis alemães.




«V» e «SG» eram as classificações de exposição: Excelente e Muito Bom. Os quatro cães são de pelo curto. Ver a página originalDepois do muro
Em 1990, sem fronteira para guardar, a criação do Estado deixou de fazer sentido. Muitos cães foram abandonados ou eutanasiados por não haver famílias para todos. Alguns criadores recuperaram-nos.
A SV integrou na sua criação os exemplares de pelo curto que correspondiam ao standard — os chamados cães de trabalho DDR. Os de pelo longo, nessa época, não eram reconhecidos e ficaram de fora. Alguns criadores alemães, atraídos pela imponência do pelo comprido e pelo dorso direito, continuaram essa linha por conta própria, mantendo a mesma seleção criteriosa e evitando cruzá-la com as linhas de beleza. Para a distinguir, mudaram-lhe o nome: Altdeutscher Schäferhund.
E do outro lado? Os criadores da Alemanha Ocidental seguiram por outro caminho: dorso em curva descendente, angulações mais pronunciadas, fisionomia mais fina e comprida, sobretudo em preto e fogo. Essa seleção pela forma trouxe mais consanguinidade e cães menos rústicos, com o carácter em segundo plano.
As quatro que se confundem
Dizer «pastor alemão de pelo comprido» não chega: há dois pelos compridos, e vêm de sítios diferentes.

Beleza · pelo curto
Dorso descaído, angulações pronunciadas, fisionomia fina. Sobretudo preto e fogo.

DDR · trabalho, pelo curto
Dorso direito, cabeça larga, pigmentação escura. Selecionado para trabalho.

Langstockhaar
O pelo longo da linha de beleza, aceite pela SV só em 2010.

Altdeutscher Schäferhund
Pelo longo com linhagens DDR no pedigree desde a guerra fria. É o nosso.
É este que criamosTrês cães, um molde
Pomos as silhuetas umas sobre as outras e a diferença salta à vista: a linha de exposição afastou-se do cão original. A nossa ficou nele.
Três camadas, três cães: o tipo original, o cão de exposição de hoje e o nosso. No computador, mexe o rato por cima da imagem para a rodar.
Silhuetas do original e da linha de exposição a partir do desenho de Hullewulle (Wikimedia Commons, domínio público). O pelo da nossa foi desenhado sobre o contorno do original.

A diferença entre o Langstockhaar e o Altdeutscher não está no pelo: está no pedigree. O segundo tem linhagens DDR de pelo longo desde a guerra fria, e com elas o dorso direito e as características daqueles cães.
Onde a raça está hoje
Fora da FCI por decisão dos próprios criadores, e a crescer na Europa.
O Pastor Alemão de Linhagem Antiga não é reconhecido pela FCI porque os criadores da raça decidiram não integrar essa federação. Consideram que apurar uma raça pela beleza, sem olhar à funcionalidade, ao carácter e à origem, desvirtua o cão e o trabalho de quem o cria.
A raça foi integrada na união cinófila mundial e tem clubes próprios em vários países, com estalão próprio: o UCFAS em França e o IHR na Alemanha, que é um dos clubes onde os nossos cães estão inscritos. O que o pedigree IHR garante, e o que não faz em Portugal, está aqui.
Na Alemanha decorrem conversações para o Pastor Alemão de Linhagem Antiga passar a constar do livro de raças como variante do Pastor Alemão.
A popularidade tem crescido, sobretudo na última década, com criadores na Alemanha, França, Polónia e Rússia. Somos os primeiros em Portugal e na Península Ibérica a integrar a recuperação desta variante, e esperamos participar na sua expansão mantendo os critérios que regem os clubes da raça.

Imagens históricas: Max von Stephanitz, 1921, domínio público · Horand von Grafrath, c. 1899, domínio público · Berlim, 1989: Bundesarchiv, Bild 183-1989-1128-012, Thomas Uhlemann, CC BY-SA 3.0 DE · «Antes e hoje»: Hullewulle · Variantes: Mustapha Ennaimi (CC BY 2.0), Richard Gruber (CC0), Canarian (CC BY-SA 4.0) · Linha DDR: S. Langer (CC BY-SA 3.0) · Mapa: Дмитрий Аверин (CC BY-SA 3.0) · Berlim, 1961: CIA, domínio público · Muro, 1989: Armin Kübelbeck (CC BY-SA 4.0) · Queda do muro: Raphaël Thiémard (CC BY-SA 2.0). Todas via Wikimedia Commons.
Perguntas frequentes
Sobre a raça
As que nos fazem sobre isto. Há mais 25 na página das perguntas.
Ver todas as perguntas →01O que é o Pastor Alemão de Linhagem Antiga?
São pastores alemães de pelo comprido, descendentes dos cães de trabalho criados na Alemanha de Leste durante a guerra fria. O nome alemão é Altdeutscher Schäferhund.
O que os distingue de um pastor alemão de pelo comprido comum não é o pelo: é o pedigree, com essas linhagens desde aquela época — e, com elas, o dorso direito e as características daqueles cães. A história completa está na página da raça.
02Quais são as características da raça?
Físico imponente e robusto, excelente saúde, equilíbrio mental, temperamento forte, inteligência e energia. São companheiros próximos do dono — afetuosos, atentos e protetores.
Têm muita vontade de aprender e de trabalhar, são brincalhões e perseverantes, e querem sempre agradar.
- RobustoFísico imponente
- EquilibradoCabeça fria
- ProtetorAtento ao território
- TrabalhadorQuer agradar
- SaudávelLinhas testadas
- BrincalhãoA vida toda
03É um cão para mim e para a minha família?
É um cão de trabalho com imensa energia, que gosta de executar tarefas e de sentir que tem um propósito. Precisa de muito tempo ao ar livre e de alguém que se ocupe dele e lhe dê o gasto de energia diário.
Tem temperamento forte e serve muito bem como guarda, atento ao território. É aconselhado a quem gosta de passar tempo com o cão, de passeios e de modalidades desportivas, e tenha quintal.
Não é aconselhado a donos inexperientes — a não ser que assumam o compromisso de ter aulas de obediência, para garantir a socialização e a educação corretas. E ninguém fica sozinho nisso: acompanhamos cada cão desde que nasce até partir para a família, para que tenha todo o apoio.
São excelentes cães de família, meigos, atentos e leais a todos. Bem socializados são maravilhosos com qualquer pessoa e animal, mas mantêm um instinto de perseguição muito apurado: não os deixe sem supervisão com animais pequenos.
04Quanto tempo vivem?
Cerca de 13 a 15 anos. É o horizonte com que se deve decidir: um cão destes é um compromisso para uma década ou mais.
Até aos 15 meses ainda está a crescer. Depois disso, mais de uma década consigo.

Uma raça explica-se melhor a ver os cães.
Estas páginas dizem o que se pode escrever. O feitio de cada cão, a estrutura, o modo como se movem — isso vê-se aqui, ao vivo.
